Eu já vivi sete vidas. Na primeira eu morri ao nascer. Talvez na sorte dos principiantes ou, quem sabe, na sabedoria dos ignorantes.
Essa vida foi fugaz. Vi o mundo despertar ao meu redor com todos os seus incômodos e não resisti - Adoeci. Assim foi-se uma chance. Não que nada se aprendesse dali. Da próxima vez eu já estaria preparada. E assim, passei a ser resiliente, aproveitei os pequenos momentos - tal qual a criança - que, inconsciente da velocidade da vida, aproveita cada momento, ouvindo a sabedoria dos seus pais. Mas, por não saber de nada além disso, nunca se afasta da sombra da família. Morri ali novamente, - duas vezes - uma ao ver meu pai partir e definitivamente ao ouvir o último suspiro da minha mãe.
Na minha quarta vida, eu me perdi. Adolescentes costumam fazer isso. Eu bebi, eu fumei, fiz todas as amizades erradas e, consequentemente, não durei muito. Logo tudo acabou novamente e eu me vi perdida. Querendo fugir de mim, na quinta vez, eu viajei. Não comi, comi demais. Chorei e não saí da cama, mas nas andanças entre um poço e outro, encontrei algumas pessoas que valiam a pena. Dessa vez, as pessoas não foram o suficiente e eu me suicidei, talvez por não encontrar o que não sabia que estava procurando.
Na sexta vida, no entanto, eu já estava atenta: me encontrei logo com os meus. As festas nas casas dos amigos e as refeições compartilhadas com paixões me distraíram do que aprendera com meus pais e, vivendo apenas de arte, não sobrevivi muito tempo.
Hoje, estou na sétima vida e acho que ainda não sei ao certo o que quero. Lembrei dos conselhos dos meus pais, achei um emprego estável e vivo em uma cidade pacata, vou à festas com amigos, bebo um pouco aos fins de semana e achei um amor, mas parece que esqueci de mim.
Por isso, escrevo este memorando, para lembrar na oitava, de passar mais tempo comigo mesma e com meus cachorros. Dançando, pintando, trabalhando e escrevendo. Sozinha. Tentar não buscar nos outros amores mais permanentes do que o meu próprio. Assim, talvez na nona tentativa eu acerte.